segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

NEIL GAIMAN

Porque agora o tempo não dá mesmo para mais... limito-me a divulgar, sem comentários, esta notícia que recebi da Rita Pimenta e que muito me alegrou pois sou fã incondicional de Neil Gaiman (apesar de ainda não ter explorado bem a obra "para adultos"). Estes, que tenho e aconselho, parecem para crianças mas...

Com a obra
The Graveyard Book, o britânico Neil Gaiman venceu o importante prémio de livros para a infância American Library Association's Newbery Medal. A ideia de um tema aparentemente tão tétrico e fantasmagórico ocorreu-lhe (há mais de 20 anos) num dia em que o filho andava de triciclo no adro de uma igreja, entre lápides centenárias. “Ele parecia estar em casa”, disse o autor ao Washington Post e sugere que o livro seja lido por crianças a partir dos nove anos. (Fonte: Letra Pequena)

É costume proclamar a versatilidade de Neil Gaiman, na medida em que a sua obra é transversal a vários géneros, do romance à banda desenhada, do argumento aos livros infantis. Mas como acontece com todos os autores que têm coisas para dizer, existe um fio condutor que atravessa todas essas experiências narrativas, quer em termos meramente formais - há um desejo claro de subverter os mecanismos tradicionais do storytelling e pesquisar as suas múltiplas potencialidades, como acontece no romance American Gods ou na série de BD Sandman -, quer em termos de conteúdo, onde existe um fascínio claro pela fantasia e pelo terror. E estas são áreas de que Gaiman nunca abdica, mesmo quando escreve um livro para crianças como é o caso de Os Lobos nas Paredes, que entra directamente para a galeria de obras-primas da literatura infantil. Os papás sensíveis devem, contudo, manter-se afastados deste perigoso objecto, porque Gaiman não pertence à casta dos autores açucarados que têm todo o cuidado para não assustar as criancinhas. Os Lobos nas Paredes mete medo, e ostenta-o orgulhosamente, tanto mais que nasceu de um pesadelo da filha mais nova do autor, que confessou ao pai que escutava as garras dos lobos a arranharem dentro das paredes. Gaiman, além de plagiar o pesadelo da filha, em vez de lhe dizer «não, não existem lobos dentro das paredes», aproveitou para contar uma série de histórias em que os lobos realmente saíam de trás do estuque e tomavam conta da casa, embora os humanos conseguissem fugir e, mais tarde, enfrentá-los. Foi da depuração dessas pequenas histórias nocturnas que este livro nasceu.

Como em Coraline, são evidentes as influências de Alice no País das Maravilhas - embora carregando nas tais atmosferas sombrias, quase góticas -, não só na criação de uma realidade paralela, escondida «atrás de», mas também na utilização do puro nonsense, no pequeno aparte surreal, numa proliferação de pequenos detalhes muito bem humorados que fazem boa parte do encanto do livro, como é o caso do fascínio pelos frascos de compota, do pai a tocar tuba ou dos lobos vestidos com a roupa da família. Mas Gaiman não se limita a produzir grandes ideias ele é também um excelente escritor, que depura o texto de quaisquer excessos, até atingir a formulação mais perfeita. Isso é particularmente evidente na agilidade dos diálogos, sempre curtos, incisivos, exactos.




E depois... bem, e depois existe um senhor chamado Dave McKean a ilustrar o livro. McKean já fizera um trabalho extraordinário em O Dia em que Troquei o Meu Pai por Dois Peixinhos Vermelhos (também editado entre nós pela Vitamina BD), mas aqui vai ainda mais longe, numa claríssima demonstração das razões que o levam a ser considerado um dos melhores ilustradores do mundo. É sempre motivo do maior espanto a forma como ele consegue conjugar numa mesma imagem os mais diversos materiais, pulando do desenho para a fotografia, do lápis para o computador com a maior das facilidades e sem nunca perder o estilo ou a coerência. Se McKean não tivesse sido bafejado com um talento absurdo, este cruzamento de tantas e tão divergentes técnicas seria um salto no abismo. Aqui, é mais um espantoso tour de force, que casa na perfeição com o universo narrativo de Gaiman. Está dito não ler Os Lobos nas Paredes é um pecado mortal. (Fonte: João Miguel Tavares)

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